O Jardim

Aquele condomínio tem um belo jardim. Árvores frondosas, flores variadas e coloridas e folhagens exuberantes. Toda a vizinhança do bairro admira seu jardim. Embora ele esteja um pouco…

ConvivênciaPor Charles Le Talludec11 de novembro de 20193 min de leitura

Aquele condomínio tem um belo jardim. Árvores frondosas, flores variadas e coloridas e folhagens exuberantes. Toda a vizinhança do bairro admira seu jardim. Embora ele esteja um pouco negligenciado, como se diz: meio largado... Folhas secas se amontoam juntamente com papel trazido pelo vento e pela falta de educação de alguns moradores, que simplesmente jogam no chão suas embalagens de supermercado e saquinhos vazios de banconzitos...

Porém o síndico é remunerado e muito bem remunerado. Como dizem os engraçadinhos, o “síndico gordo tem um gordo salário...” Já o zelador, este foi içado à condição de manager. Desfruta de um belo salário bem acima daquele previsto para a categoria. Não é incomum ver o zelador, em dias de reunião, vestido de terno Armani ou Hugo Boss. E sapato de cromo alemão (seja lá o que isso possa ser... Mas é ele quem diz: cromo alemão!...). Os empregados do condomínio também não ficam atrás, seus salários são, no mínimo, o dobro daquele de seus pares de profissão. Portanto, todo mundo que trabalha naquele condomínio está feliz. Menos o jardim. Este, pobrezinho, naturalmente bonito, está com ares tristes e se sentindo abandonado...

E eis que um dia de manhã as pessoas veem a fumaça surgindo no jardim, espessa, ameaçadora. Toda mundo corre para ajudar. Mas os hidrantes estão secos e as mangueiras de emergência sem manutenção não conseguem conter o fogo que se alastra pelo jardim. As pessoas ficam aflitas. “ Oh o belo jardim!...” Ouvem-se as exclamações de pesar aflorarem de todos os cantos e muitas vindo da vizinhança.

O gordo síndico não sabe o que fazer. O manager, vestido apropriadamente para o evento, de mangas de camisa Pierre Cardin e calça idem, olha assustado, passa a mão no cabelo, faz ares de preocupação, mas não pode fazer muito mais que isso porque as mangueiras estão secas e imprestáveis e os extintores vazios.

Os vizinhos vêm acudir. Forma-se rapidamente uma comissão. Não se tem muito tempo porque o caso é fogo! Ouve-se ao longe a sirene dos bombeiros, que demoraram para ser chamados porque se perguntava se os bombeiros pediriam o AVCB, vistoriariam as mangueiras e os equipamentos de combate à incêndio. Enfim, paciência, tiveram que chamar os bombeiros...

O fogo comia solto e a comissão formada pelo síndico, manager, conselheiros e palpiteiros debatiam as “estratégias” a serem adotadas.

Vizinhos, todos voluntários, já estavam no jardim abafando o fogo, limpando o que podia ser retirado e ajudando como entendiam melhor.

Os bombeiros chegaram e depois de algumas horas o fogo tinha sido debelado. Foram embora, mas ficaram aquelas poças d´águas, enormes e pretas, sujas, com resíduos do incêndio espalhados por todo o belo jardim, que, a esta altura dos acontecimentos, já não estava mais tão bonito assim.

Uma comissão de vizinhos, todos aparentemente com boa vontade, se formou e foi falar com o gordo síndico. Propuseram fazer uma vaquinha para contratar uma empresa de paisagismo para recuperar o jardim, porém, pediram, gostariam de usufruir do jardim, fazer pic-nics com a família, instalar cadeiras para leitura e balanços para as crianças.

O gordo síndico disse que era impossível, pois se tratava de propriedade particular: “o jardim é nosso!” Disse enfaticamente.

O manager, do alto de seu agora terno de no mínimo R$ 10.000,00 (porque ele foi se trocar para comparecer de “forma digna!” na reunião), vaticinou:

  • É impossível compartilhar o jardim. Ele é nosso! E isso é uma questão de so-be-ra-nia! Falou assim, destacando as sílabas.

Agora o jardim tinha se tornado importante... Gordo síndico e manager pretendiam proteger sua “soberana propriedade” de quaisquer “ingerência estrangeira...”

A comissão se desfez sem nenhum resultado. Alguns resmungos de parte e outra. E o jardim continuou lá, com suas poças d´água, sujas, esperando o sol para secar e depois começar a feder. Até que alguém perguntou:

  • Mas que raio de soberania é essa que deixa as coisas queimarem, apodrecerem sem qualquer “ingerência” só para falar “é meu e ninguém tasca?”... Francamente, eu não entendo...
ColunistaCharles Le Talludec

Charles Le Talludec - Advogado

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